Nos tempos atuais o termo "responsabilidade social" tem recebido um grande destaque por parte de empresas, mídia, políticos e instituições de ensino públicas e privadas.
A definição do termo é refém dos interesses e objetivos que cada setor almeja com estas duas palavras, seja, promoção social, marketing social, notoriedade social, todas estas apresentando justificativas muito bem elaboradas para cada uma das atividades que mascara o verdadeiro objetivo com campanhas, ações e projetos em que, nem sempre, os fins justificam os meios.
A responsabilidade social é hoje um requisito exigido das Instituições de Educação superior privadas, Justifica-se essa exigência pelo fato difundido na mídia de que os altos valores da mensalidade cobradas pelas mesmas, devam reverter de alguma forma em benefícios para a sociedade na qual está inserida.
É, no mínimo, questionável este raciocínio. A totalidade dos recursos financeiros das IES privadas tem origem das mensalidades pagas pelos alunos (que na verdade, caracteriza-se como um empréstimo cedido pela instituição para o aluno nos atuais moldes ditados pela lei 9870 de 1999, porém isto já é outro assunto) e assim sendo cada aluno paga por um serviço que ele está adquirindo. Caso fossem realizados “projetos sociais” os recursos para financiá-los (uma vez que não há a figura dos “amigos da escola” na educação superior, que, diga-se de passagem, são pessoas que trabalham voluntariamente para fazer o que o governo já é bem pago para fazê-lo através dos nossos impostos – outro assunto) teriam que ser retirados da única fonte, ou seja, geraria um contra-senso e um desrespeito com o valor pago pelo aluno à instituição que espera que o mesmo seja revertido na forma de boas aulas, boa infra-estrutura e bons funcionários para atendê-lo. Portanto exigir que cada uma das IES realize “projetos sociais” é uma atitude que mercê uma discussão muito além dos bancos escolares.
E é exatamente destes bancos escolares, de uma educação básica deficiente, na qual professores e diretores de escolas enfrentam dificuldades que vão muito além dos baixos salários, falta de respeito em salas de aula, medo da violência, etc.. A deficiência é muito mais estrutural, comportamental do que material. Esta última, porém, é colocada pelos governantes como sendo a mais importante, uma vez que a doação de computadores, “datashows”, internet banda larga para escolas é muito mais fácil de ser alardeado na mídia do que um efetivo fórum de discussão para verificação dos reais motivos que nos trazem este cenário de “fingir que ensina enquanto outros fingem que aprendem”. Por que não se valoriza o soldado que realmente está na linha de frente da batalha (muitas vezes em sentido literal), ou seja, o professor. Recursos há, sem dúvida, haja visto o montante que presenciamos no FUNDEB, porém este também é outro assunto.
Como reflexo desta educação básica deficiente chegamos ao final da “cadeia educacional”, ou seja o final da linha desde que o indivíduo entrou no 1º ano do ensino fundamental até chegar aos limites da educação superior. Não é novidade, neste ponto, que os alunos que tiveram melhores oportunidades de educação básica, geralmente na rede privada, sejam maioria nos bancos das universidades públicas, uma vez que seus processos seletivos exigem muito mais do que conhecimentos comuns à maioria de nossos alunos concluintes do ensino médio e população em geral. O que dizer então daqueles alunos que são reprovados nestes mesmos processos seletivos e ficam à margem da educação superior gratuita. Estes mesmos juntam-se a uma outra grande massa que, devido à necessidades econômicas, necessitam trabalhar durante o dia, inviabilizando, desta forma a realização de qualquer outro curso em caráter integral, ou que mesmo parcial fique impossibilitado pela dificuldade de deslocamento. Será que os casos citados anteriormente os tornariam alheios ou não merecedores de uma oportunidade de ingressar na educação superior? Para obter o tão almejado diploma, que, ainda hoje é o principal motor propulsor para a ascensão profissional e social?
Nesta parte da história é que as instituições de educação superior privadas tornam-se personagens, atuando de forma desenvolver competências e habilidades específicos de cada profissão, ao mesmo tempo em que tenta sanar deficiências herdadas do processo de educação básica. Ensinar é a palavra de ordem para os professores das instituições de educação superior privadas, uma vez que motivar e auxiliar o aluno na construção do conhecimento exige do educador destas instituições, sensibilidade e criatividade para formar o profissional e o cidadão, convivendo sempre com os “apesares”, apesar da falta de conhecimento prévio, apesar da falta de tempo para dedicação às atividades extra-classe, apesar da falta de recursos, apesar da falta de acesso à internet na casa do aluno, apesar do tempo diário de viagem enfrentado pelo aluno até a faculdade, entre outros.
Portanto a responsabilidade social das instituições de educação superior está no fato de que, mesmo sendo de nível superior, constroem o conhecimento que deveria ter sido concluído no ensino médio, ao mesmo tempo em que desenvolvem competências e habilidades necessárias ao futuro profissional.
Popularmente falando, “trocamos o pneu furado do ônibus estando este em movimento”.

